Qualidade de Vida
entrevista - NA RIBALTA: DR. CARLOS ROBERTO JAMIL CURY
Qual caminho para melhorar a educação no Brasil?

A Profª Ma. Ivana Mussi Gabriel, do curso de Direito da FIPA, argumenta que no Brasil há uma tendência de isolamento da maioria das universidades em relação às demandas da sociedade em geral. "Muitos profissionais saem das universidades com uma formação mais preocupada com titulação do que com produção de conhecimento relevante", disse.
Para a professora, a realidade exige criação de ações, de práticas que levem a inserção do investigador acadêmico em programas educativos, num intercâmbio de experiências entre produtores e consumidores de conhecimento na área da educação. Diante disso, ela coordena o projeto de pesquisa "Direito na Escola", cujos alunos envolvidos entrevistaram um dos principais profissionais da educação no Brasil, Dr. Carlos Roberto Jamil Cury, em busca de respostas para perguntas que muitos gostariam de fazer, mas não o fazem por falta de oportunidade.
A Profª Ivana destaca que o Dr. Carlos Roberto Jamil Cury é um verdadeiro educador, mestre capaz de dar aos problemas educacionais as dimensões que a realidade exige; um profissional que pensa a "Lei da Responsabilidade para Educação" e que possui uma história de coerência na busca do que é essencial para a vida: amor e conhecimento.
Formado em Filosofia, mestre e doutor em educação, com ênfase na Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ele cursou parte de seu Pós-Doutorado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e outra parte na Universidade de Paris. Foi membro do Conselho Nacional de Educação e Presidente da CAPES. Atualmente é professor do programa de Pós-Graduação da PUC-MG, professor emérito da UFMG, pesquisador 1 do CNPq, com inúmeras obras publicadas sobre educação, como a mais recente denominada "Carlos Roberto Jamil Cury, intelectual e educador".
Qual caminho para melhorar a educação no Brasil?
Dr. Carlos Roberto Cury: Costumo dizer que há um problema nacional extraescolar que atinge a educação escolar. Trata-se da distância entre a socialização familiar e a socialização escolar. Quando esta distância se aprofunda, a atividade interna nas escolas se torna muito difícil. Além, este fosso pode estar sendo aprofundado pela desigualdade de renda em nosso país. Por outro lado, temos que melhorar e muito a formação docente em nossas instituições de ensino superior. Formação inicial mais sólida e com metodologias adequadas. Por outro lado, há que se considerar a evolução e o avanço do conhecimento científico. Daí a importância da formação continuada para efeito de atualização. Mas como fazê-lo com docentes que ganham mal e, não poucas vezes, fazem até três turnos por dia?
Gostaria de saber se o sistema de ensino em período integral seria/será eficaz para os alunos?
Dr. Carlos Roberto Cury: Não há a menor dúvida. A maior parte dos países que participam do PISA tem, no mínimo, 7 horas de educação escolar por dia com almoço incluído. Ora, isto significa um docente permanente fixo na escola e, por suposto, um aumento de recursos. O que temos hoje é uma pequena parte de escolas que têm o turno convencional para educação escolar e o contra turno com atividades lúdicas, estéticas, esportivas (mas na maior parte fora do ambiente escolar). Este contra turno está oferecido, na maior parte, para escolas em bairros vulneráveis, de modo geral, amparado por recursos voluntários da União para o Programa Mais Educação.
Como o senhor analisa a questão do novo modelo do ensino médio? A crise que afeta este sistema é atualmente uma questão de ausência de ações/medidas governamentais, falta de efetividade ou aplicação das leis existentes ou ineficiência destas?
Dr. Carlos Roberto Cury: O ensino médio já foi chamado de ensino secundário e de ensino de 2º grau. Para entender a atual lei nº 13.015/17 é preciso se saber que é 16ª Reforma do Ensino Médio. A primeira foi no Império, em 1856, reforma Couto Ferraz. Portanto, há um nó no ensino médio. Qual é este nó? Nós vivemos em um país capitalista. Nos países capitalistas, democráticos ou não, a desigualdade lhe é ínsita. Evidentemente em países onde (ainda) predomina o Wellfare State, as desigualdades tendem a se atenuar. Contudo, em algum momento, esta desigualdade aparece. No caso da educação, ela sempre apareceu no ensino médio. E continua aí presente. As reformas tendem a aprofundar ou atenuar tal desigualdade. Teria que se fazer um estudo histórico sobre cada qual. A atual, smj, é regressiva em relação ao texto original da lei de diretrizes e bases da educação nacional (lei nº 9394/96), pois diminui os conteúdos gerais para todos e, dada a nossa realidade, não poderá oferecer nas escolas os ditos cinco itinerários formativos. Pense em uma cidade pequena perto de Catanduva que tenha apenas uma só escola de ensino médio. Você entende que ela poderá oferecer os cinco itinerários? E, pior, a meu ver, a educação profissional que tinha um estatuto próprio na versão original agora se tornou um dos itinerários. Na Reforma de 1942, Capanema afirmava: o ensino médio geral é o destino das elites e a educação profissional é o destino da massa. Estaríamos voltando a 1942?
Como o senhor acredita que os recursos alternativos, tanto os digitais quanto os de cunho técnico, como projetos de apoio, podem acrescentar ou de alguma forma transformar o ensino em nosso País?
Dr. Carlos Roberto Cury: Os recursos digitais vieram para ficar. Não há como fugir deles. Eles já são o nosso cotidiano. Mas eles complementam e aperfeiçoam o ensino clássico. O problema é que os docentes necessitam de formação para dar conta, pedagogicamente, desta ferramenta contemporânea. Projetos de apoio são previstos na legislação atual da educação nacional. Na falta que temos de professores, especialmente de ciências exatas, acaba-se fazendo o mínimo para dizer o máximo.
Gostaria de saber o porquê do governo não levar a sério a educação pública. Há alguma maneira de acabar com essa metodologia hipócrita de ensino? Por exemplo, se o Direito fosse ensinado às pessoas desde os primeiros anos na escola, como parte do currículo escolar em todas as instituições de ensino, não provocaria uma melhora na sociedade?
Dr. Carlos Roberto Cury: Não vejo o ensino do Direito como antídoto a um ensino hipócrita. De todo o modo, eu precisaria saber de você o que você assinala como ensino hipócrita. Quando a Constituição articula educação com cidadania no art. 205 ela aponta o conhecimento das regras do jogo como os requisitos procedimentais mínimos para ficarem com Bobbio, próprios do direito. Mas vai além, ao defender a igualdade com equidade (art. 3º da CRFB/88).
A Escola, segundo os educadores, é um dos primeiros lugares ideais para a formação cidadã, pois é o espaço onde a criança vivencia suas primeiras experiências de convívio social. Entretanto, os professores ainda encontram dificuldades em abordar este tema. Qual o caminho que os nossos educadores poderiam seguir para enfrentar estes problemas? O senhor acredita que, na prática, deveriam ser criadas disciplinas próprias sobre "cidadania" ou trabalhá-las em correlação às demais matérias?
Dr. Carlos Roberto Cury: Não é por falta de conteúdos sugeridos ou até exigidos. Basta consultar as Diretrizes Nacionais Curriculares da Educação Básica (www.mec.gov.br - CNE - Atos administrativos - Pareceres da Câmara de Educação Básica ou diretamente no Google). Há Diretrizes específicas sobre a Educação em Direitos Humanos e a Semana de Valorização da Vida. É verdade que são conteúdos transdisciplinares que devem estar presentes no projeto pedagógico das escolas. Além disso, há os Parâmetros Curriculares Nacionais que têm um volume sobre Ética e outro sobre Pluralidade Cultural. O problema é que o aparato formativo é débil e hoje há uma verdadeira obsessão pelos pontos do IDEB.
Por que as escolas do Brasil não ensinam os estudantes a pensar, a ter um senso crítico fora do senso comum? O que vemos nas escolas são apenas os aprendizados passados pelos professores aos alunos do que está no cronograma, normalmente apostilas ou livros. Não seria importante também, além de preparar o aluno sobre as respectivas matérias dadas e vestibular, aflorar seus pensamentos? Ensiná-los a criticar, a entender, a ser curioso sobre outros assuntos?
Dr. Carlos Roberto Cury: Este seu parecer é o que está previsto na legislação educacional e nas diretrizes curriculares nacionais da formação docente (coloque isto no Google). Você verá que a distância entre o legal e o real é enorme. Há um texto de Anísio Teixeira (Valores Proclamados e Valores reais na educação brasileira). Apesar de escrito na década de 60 ainda é atual.
Sobre políticas públicas de educação como ações com o objetivo de intervenção na realidade educacional do país, como construir política pública educacional no sentido de tratar todos como um só, levando em consideração as avaliações externas a que somos submetidos?
Dr. Carlos Roberto Cury: Recentemente, após múltiplas reuniões, debates e assembleias, partindo dos Municípios, passando pelos Estados e chegando à União, foi elaborado o Plano Nacional de Educação (lei n. 13.005/14). Após este, os Estados e Municípios fizeram os seus com metas e estratégias. Deveria ser o caminho mais pertinente para as políticas públicas de educação. Contudo, os atuais mandatários, seja por razões econômicas, seja por razões políticas, mais uma vez os estão colocando na gaveta. Ou seja, a política do dia a dia faz submergir a política de Estado.
De que maneira podemos promover uma melhor conexão entre a educação escolar e outras formas de aprendizagem ao longo da vida para que todos exerçam uma cidadania responsável? A nova reforma do ensino médio influenciaria nisto de maneira positiva ou negativa?
Dr. Carlos Roberto Cury: As formas de aprendizagem ao longo da vida, um dos objetivos dos documentos da UNESCO, dependem de um método de aprendizagem. Os estudantes precisariam, na educação básica, ao lado dos conhecimentos sólidos, aprender a buscar a atualização destes conhecimentos por meio da introdução à pesquisa. Hoje, há um avanço contínuo dos conhecimentos e quando recebemos nossos diplomas eles já estão um pouco defasados. Por isso, a educação de jovens e de adultos não é só para reparar o não acesso de pessoas que não tiveram oportunidade de entrar na escola na idade oportuna. Ela é também um espaço para o desenvolvimento das potencialidades da pessoa.
Como planejar a educação futura de forma a atender aos ideais democráticos com uma base tão precária? As escolas brasileiras, atualmente, sabem guiar os alunos para a construção da cidadania e de uma visão crítica? O planejamento educacional atual proporciona, satisfatoriamente, aos alunos os princípios elencados pelo artigo 206 da Constituição Federal?
Dr. Carlos Roberto Cury: Os princípios do art. 206 da CRFB/88 tiveram, nestes 29 anos, dois Planos Nacionais de Educação como modo de operacionalizá-los. O primeiro fracassou porque houve um veto ao financiamento no governo FHC. O atual, elaborado com grande participação federativa e democrática, também está sendo asfixiado pelo lado do financiamento. Apesar disto, a valorização da cidadania é finalidade superior da educação, mesmo com as dificuldades e empecilhos existentes. De fato, temos uma base precária dupla: a desigualdade social dentro de uma metropolização vulnerável e a formação precária de professores associada a uma carreira pouco atraente.
Um investimento social nas famílias dos alunos das escolas brasileiras é muito importante. Quais as suas ideias sobre como fazer isso com eficiência?
Dr. Carlos Roberto Cury: A atual realidade nos mostra, dentro da metropolização das urbes, uma grande vulnerabilidade social e com ela um esgarçamento das famílias (quaisquer sejam sua composição e desenho). Foi neste sentido que a Bolsa-Família e/ou Bolsa-Escola são geridas pelas mães. Mas isto é muito pouco. Pois o esgarçamento conduz a lacunas, ritmos alterados e aspectos psicológicos de difícil atenção. Isto sem falar da disseminação das drogas. Sem levar adiante o que diz o art. 3º da CRFB/88 no tocante à redução de desigualdades será difícil dar às famílias algo mais do que uma assistência. Não é por outra razão que o evangelismo vem oferecendo um refúgio - ersatz a estas vulnerabilidades.
O projeto Direito na Escola tem a participação dos alunos Bianca Guilherme de Oliveira (egressa); Elison Bruno Matheus; Cíntia Letícia da Silva Casarini; Isabela Zatti Perin; Alexandre Ricardo Gallego; Matheus Brito; Adiéli de Barros Ricci; Luís Augusto Gaes Santos; Marissa Gabriélli dos Santos Lima; Geise Cabral Belini; Daniela Ming; Rafaela Franco Garcia; Bruna Soares Pisolito e Larissa da Silva Siqueira.
